Dentro do debate global sobre a mitigação das mudanças climáticas, a precificação de carbono deixou de ser um tema regulatório distante e passou a ocupar um lugar central nas decisões estratégicas das empresas. No Brasil, esse movimento se consolidou com a aprovação da Lei nº 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e criará obrigações diretas para cerca de 4.000 empresas em diferentes setores (exceto agricultura) com emissões superiores a 10.000 tCO₂e (dez mil toneladas de dióxido de carbono equivalente) por ano em um horizonte próximo1. Em paralelo, o país já conta com um Mercado Voluntário de Carbono, no qual o Brasil se destaca internacionalmente, sobretudo em soluções baseadas na natureza, agricultura sustentável e bioenergia. Esse duplo arcabouço posiciona o Brasil como um dos mercados de carbono mais relevantes do mundo, com potencial de gerar valor econômico expressivo e apoiar metas climáticas mais ambiciosas no âmbito da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) 3.0.
Para executivos e conselheiros, entender como funcionam os diferentes mercados de carbono é essencial para antecipar riscos e orientar a estratégia corporativa. O SBCE seguirá o modelo “cap and trade”2, no qual limites de emissão serão definidos e as empresas precisarão monitorar, reportar e, em determinados casos, compensar suas emissões com ativos regulados. Já o mercado voluntário permite a compra, venda e cancelamento de créditos de carbono certificados3, enquanto os mecanismos do Artigo 6 do Acordo de Paris abrem espaço para transações internacionais de créditos de alta integridade. A implementação gradual do SBCE, com exigências crescentes de Monitoramento, Relatórios e Verificação (MRV) e metas vinculantes para grandes emissores, traz riscos relevantes de multas, prejuízos reputacionais e até restrições operacionais para empresas que não se prepararem a tempo.
Ao mesmo tempo, falar de mercados de carbono no contexto corporativo não deve se limitar à conformidade. O novo arcabouço cria oportunidades estratégicas. Embora hoje o mercado voluntário de carbono brasileiro contemple cerca de 273,9 milhões de créditos4, a demanda global pode chegar a mais de 1 bilhão até 2035.5
Portanto, devem ser discutidas as potenciais oportunidades de negócios, como o desenvolvimento de projetos que geram créditos tributários, a otimização dos custos de conformidade por meio de CRVEs6 (Certificado de Redução ou Remoção Verificada de Emissões), a atração de investimentos e o acesso a mercados internacionais, incluindo países que já firmaram convênios com o Brasil.7 Empresas que se anteciparem, estruturando governança interna, capacidades de mensuração e uma estratégia clara de atuação, estarão mais bem posicionadas para transformar a precificação de carbono em vantagem competitiva. Nesse sentido, o diálogo dos conselheiros com os executivos deve conectar clima, risco regulatório e criação de valor, mostrando que o mercado de carbono no Brasil é não apenas uma obrigação emergente, mas um novo vetor de crescimento e posicionamento estratégico.
Perguntas para consideração do conselho
- Como nossa empresa está se preparando para cumprir as obrigações do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), especialmente em relação ao monitoramento, reporte e verificação das emissões?
- Quais são os principais riscos regulatórios e reputacionais que identificamos no contexto do mercado de carbono, e quais estratégias estamos adotando para mitigá-los?
- Estamos explorando oportunidades de negócios no mercado voluntário de carbono e avaliando o potencial de desenvolvimento de projetos que gerem créditos de carbono certificados?
- Como estamos estruturando nossa governança interna e capacidades técnicas para mensurar e gerenciar nossas emissões de forma eficaz e transparente?
- De que forma a estratégia de precificação de carbono está integrada ao nosso planejamento de longo prazo e à criação de valor sustentável para a empresa?