pessoas em um corredor de um escritorio

Profissionalizar a gestão ou a sociedade na empresa familiar?

Tópicos relacionados

A importância da construção e da profissionalização da sociedade para a longevidade da empresa familiar.

Por Armando Lourenzo, vice-presidente do Conselho Consultivo do EY Institute.


Vários problemas impedem a sobrevivência das empresas familiares, e geralmente estão relacionados aos conflitos familiares, à sucessão ou à profissionalização. Além dos conflitos e da falta de preparo dos acionistas, outro aspecto fundamental é a construção das sociedades entre os herdeiros, que independente da geração de cada um, é vital para a perpetuação da empresa familiar. 

Algumas sociedades começam sem parentesco entre os fundadores, mas com o tempo, a presença de seus filhos faz com que se tornem empresas multifamiliares. Nessas sociedades, o vínculo pelo trabalho criado pelos acionistas sem parentesco é, muitas vezes, superior ao existente entre seus familiares. Quando as gerações futuras se estabelecem no comando da empresa, podem surgir problemas de relacionamento, tendo em vista os laços culturais, muitas vezes, totalmente diferentes entre fundadores, herdeiros e acionistas. 

A lógica da saída da sociedade não obedece ao cronograma de entrada por diversos motivos, como falecimento, por exemplo. Portanto, é provável que um fundador tenha que se relacionar societariamente com os novos acionistas herdados do outro fundador.    

Nas empresas constituídas por uma única família, também é necessária a construção de uma nova sociedade entre irmãos, primos, ou até mesmo entre os herdeiros e os fundadores remanescentes da mesma família.  

Na primeira geração, muitas vezes marcada por lideranças carismáticas, a decisão é praticamente toda centralizada e a formulação de estratégias é feita exclusivamente pelo fundador, sem participação expressiva dos herdeiros. Não se cria a possibilidade de trabalho conjunto entre os herdeiros, que ficam à espera das ações dos fundadores, ainda que nem sempre concordem com as decisões. 

Nesse contexto, algumas ações são indicadas para a arquitetura do sistema de governança da empresa familiar visando sua longevidade. Essas ações podem ser realizadas por meio de acordos familiares (redução de conflitos), estabelecimento de instâncias de poder (conselho de família, conselho societário, conselho consultivo, conselho de administração e diretoria executiva) para a separação clara entre propriedade, família e gestão, e a capacitação dos sócios para a implementação da profissionalização da empresa e da sociedade. 

Entre as três instâncias de poder - família, propriedade (sociedade) e empresa (gestão) - comportamentos, expectativas e objetivos podem divergir.  

Esses aspectos devem ser administrados e reduzidos pelo estabelecimento de um protocolo familiar e da implementação dos conselhos. Com o estabelecimento desses fóruns, regulados pelo acordo familiar, inicia-se o processo de separação entre a propriedade e a gestão e, como resultado, a profissionalização societária.  

Os conselhos societários são um espaço muito importante para a construção desse novo tipo de relacionamento entre os herdeiros. A nova sociedade deve se iniciar, preferencialmente, com os pais ainda vivos para que possam ajudar os filhos a se relacionarem como sócios com base na longa experiência que tiveram ao longo dos anos na empresa. Esta nova construção da sociedade será longa e deve ser exercitada frequentemente. Quanto mais se exercita a harmonia, maiores serão as chances de sucesso da sucessão. 

Nesse processo de profissionalização societária, cria-se um acordo familiar entre os sócios, com a participação dos familiares, para que se possa ter um conjunto de regras para a relação entre os acionistas familiares, os gestores, a família e a empresa. 

Mesmo existindo este acordo familiar, os problemas não estarão totalmente resolvidos. No entanto, com o comprometimento criado durante a elaboração participativa desse protocolo, percebe-se uma melhora no enfrentamento das dificuldades, além do direcionamento das empresas com foco em sua longevidade. 

É necessário que as empresas separem as instâncias do poder, ou seja, a propriedade da gestão, e assim definam um modelo de governança: o conselho de família, o conselho societário, o conselho consultivo, o conselho de administração e a diretoria executiva. As três primeiras instâncias permitem que as famílias proprietárias da empresa estabeleçam um relacionamento que profissionalize a sociedade.

Assim, a diretoria executiva terá como foco a gestão e será subordinada ao conselho societário, que terá como principal atribuição as grandes decisões referentes aos rumos da empresa, objetivando sua perpetuação no mercado. 

Ampliando essa separação de instâncias, também é importante um acordo entre acionistas que regule seus relacionamentos. 

É fundamental compreender que profissionalizar a gestão não basta; é necessário profissionalizar também a sociedade, pois é ela quem define os rumos da empresa familiar.

Resumo

A longevidade das empresas familiares depende da profissionalização da sociedade, além da profissionalização da gestão, pois viabiliza a sucessão e a resolução de conflitos entre acionistas. A adoção de acordos familiares e instâncias de governança separa família, propriedade e gestão, reduz divergências e orienta decisões voltadas à perpetuação da empresa.

Sobre este artigo